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O legado de Anyky Lima, ativista travesti: ‘eles me querem morta, mas esqueceram que eu sou uma semente’

Pioneira na luta pelos direitos de pessoas trans e travestis, Anyky morreu aos 65 anos, em Belo Horizonte (MG), tendo sobrevivido à ditadura, à epidemia do HIV e à violência transfóbica.

Por Jessica Santos

“Ei Jéssica! Tudo bem? Não sei se você viu, mas a Anyky faleceu hoje. Achei que seria bom te avisar, porque você deve ter dos últimos registros do nosso ícone”, foi a mensagem que Vanessa Sander, a pesquisadora da Unesp, me enviou no WhatsApp no começo da tarde desta quarta-feira (14/4). A mensagem me transportou para 24 de março deste ano, dia que conversei com a travesti Anyky Lima e que me marcou de forma indelével.

Se você pesquisar o termo “Anyky Lima” no Google vai perceber que ela foi uma fonte constante sobre transexualidade e velhice. Reportagens, entrevistas, série de documentários, artigos, teses, dissertação, o material é relativamente amplo. Não é nenhuma surpresa se você considerar que a idade média que uma pessoa trans alcança no Brasil é de 35 anos, segundo dados da União Nacional LGBT. Anyky partiu aos 65. “É, meu bem, ter conseguido sobreviver, eu acho que foi sorte. Medo, sorte. Eu acho que foi um pouco de tudo, né? E realmente porque eu tinha que sobreviver”, me contou durante nossa conversa.

Nascida no bairro de Padre Miguel, zona oeste do Rio de Janeiro, ainda bebê foi entregue a uma tia, pois a mãe teve que fazer uma cirurgia. A permanência com a tia durou até seus 7 anos. “Quando eu comecei com sete, oito anos com o jeitinho de menina, de viadinho, meu tio me botou pra voltar pra casa da minha mãe”. No teto materno, não havia intimidade com a família e ali ficou até que sua consciência de gênero passou a incomodar em casa. “Me mandaram embora, expulsaram de casa, minha mãe que me expulsou e eu vim pra rua”. Ela tinha 12 anos quando partiu do Rio de Janeiro para o Espírito Santo, onde trabalhou na prostituição. Depois, foi para Belo Horizonte (MG), cidade que escolheu para viver.

Foram 50 anos como profissional do sexo, ocupação que encontrou para que pudesse sobreviver, ter um teto sob sua cabeça, ainda que fosse alugado. O direito a habitação é algo longínquo para transsexuais e travestis, bem como os direitos a educação, a saúde e muitas vezes a vida. Também foi costureira, cabelereira e até teve uma pensão na qual alugava quartos para travestis mais jovens como Gisella Lima, que Anyky considerava uma filha. “Antes mesmo de conhecer pessoalmente Belo Horizonte, eu já conhecia a figura da Anyky, nem por foto, mas eu já sabia da existência dela. Anos depois, eu fui inquilina da pensão que ela tinha”, conta.

“Netos” e “sobrinhos”

“Fazíamos almoço, conversamos muito e curtíamos os cachorros”, relata pelo Facebook Henrique Bossi, amigo que passou a conviver com a travesti em 2014 quando começou a frequentar a casa da “tia”, como a chamava. “Mais que militante, Anyky dividiu o pão com muitos que pouco tinham ou nem isso. Ajudou em festas para crianças, pessoas em vulnerabilidade social, em especial a população em situação de rua, muitas travestis que foram a BH em busca de sobrevivência, entre outras”, conta Henrique em sua homenagem, uma de tantas que enchem a página de Anyky na rede.

“Vó” e “tia” são termos que se repetem nas despedidas. Anyky acolhia, criava laços, costurava famílias por laços de amor. É um caleidoscópio de saudades e lembranças. “Todas as Travestis e Transexuais tem débito com essa Travesti Babadeira Tia Nyky como os mais próximos a chamavam”, diz uma postagem.

“Conviver com a Anyky foi uma experiência mágica”, Gisella me conta por áudio no WhatsApp. Na mesma fala, ela descreve todas as faces de Anyky: “tem a Anyky de luta, a Anyky resistência, mas também a Anyky carismática, a Anyky sensata, a Anyky crítica”.

Militância

Uma das muitas faces de Anyky foi a de militante. Representante mineira da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), presidente do CELLOS/MG (Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais), ela defendia que as pessoas trans e travestis tivessem acesso a saúde, moradia, educação, aos mesmos direitos que qualquer outro cidadão. “A saúde, a educação, é um direito de todo cidadão e as pessoas não veem a pessoa T, travesti, transexual, homem trans, se como ser humano. Então, como não vê como humano, não dá esse privilégio que o ser humano tem”.

Para Keila Simpson, presidente da Antra, Anyky foi “uma figura a frente do seu tempo […] uma pessoa muito preocupada com o ser humano. Ela estava doente e mesmo assim estava preocupada em fazer o bem”. Keila ainda completa: “ela fazia com que a vida parecesse fácil mais do que a vida é”.

A Keila se unem outras vozes e instituições que reconhecem o legado de Anyky para o movimento trans. Em nota, o CRP-MG (Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais) destacou que Anyky “sobreviveu à transfobia, à ditadura militar e à epidemia de HIV. Sobreviveu também às estatísticas das mulheres trans e travestis, tornando-se um exemplo para o Movimento Trans Nacional.”

“Vó Anyky constituiu uma longa trajetória, incidiu em políticas públicas, contribuiu com pesquisas acadêmicas e para o processo de humanização da população trans brasileira.”, diz a nota da Antra, organização da qual ela fazia parte.

Anyky foi presidente do Cellos/MG e representante da Antra em Minas. Reprodução / Arquivo pessoal

Já para a ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Anyky “foi uma grande referência de luta para todes nós por sua contribuição e história”.

Em vida Anyky foi homenageada pela rede Fhemig (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais) ao batizar o Ambulatório Trans do Hospital Eduardo de Menezes com seu nome. “O Ambulatório Anyky Lima é a comprovação do reconhecimento ao seu atuante papel frente ao acolhimento, à conscientização e à busca contínua pela humanização da assistência”

Últimas palavras

Volto àquele dia 24 de março. Anyky já estava há quase quatro anos enfrentando um câncer e seu único pedido foi que a entrevista não fosse gravada em vídeo, pois não queria aparecer debilitada pela doença que tanto odiava. “Eu nasci com ele, não é aqui que ele tem que morar. Eu quero que ele vá pra profundeza do mar, aonde ele não chegue perto de ninguém”.  

Conversamos por áudio e por vezes sua voz, tão gostosa de ouvir, enrolava as palavras, ia fenecendo aos poucos até que ela acabasse o áudio e me mandasse outro, mais animada. Ela ia me contou sobre sua vida e os caminhos que traçou para si. E, em nenhum momento, perdeu o olhar para os outros.

“Hoje, não é mais nem trinta e cinco anos. Hoje, elas estão morrendo aí com quinze, com treze, meninas sendo assassinadas com bem menos idade. E isso é muito triste porque a violência, cada dia que passa, está mais constante na vida da pessoa trans, né?”, lamentou após pensar na própria longevidade.

Pensava, inclusive, nas trans que chegavam a sua idade. “É realmente muito triste uma pessoa trans idosa sobreviver. Se ela precisar ser internada e ela não tiver um conhecimento, ela vai pro meio dos homens. Vai ter que ocupar o banheiro masculino”.

De todas as coisas que me disse, foi já no final da conversa, quando conversamos sobre a sua doença, a que mais me marcou quando fez brilhar, uma vez mais, que sua sede de luta era constante. “Eles me querem morta, mas eles esqueceram que eu sou uma semente e uma semente renasce. Eu já renasci várias vezes. Eu sou igual aquele pássaro que renasce das cinzas. E vou renascer dessa vez das cinzas. Pra lutar, pra brigar pela minha comunidade. Enquanto existir força, existir um suspiro de vida, eu estarei lutando não só pela comunidade trans, mas qualquer ser humano”.

Foto de Capa: Reprodução/Arquivo Pessoal

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