O dia 17 de maio marca o “Dia Internacional contra a LGBTfobia”, a data foi escolhida por conta de decisão da OMS, Organização Mundial da Saúde, em 1990 de retirar homossexualidade da lista de distúrbio mental da CID, Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde.

Com 28 anos de atraso, em 2018, a OMS fez movimentação similar com Transexualidade, que deixa de ser considerada transtorno mental, passando para categoria “incongruência de gênero”. O debate sobre esse movimento é grande, afinal, se por um lado segue patologizando os corpos trans, por outro, permite que a população trans tenha acesso à serviços de saúde como hormonioterapia e cirurgias de redesignação de gênero e mastectomia, por exemplo.

Vale ressaltar que originalmente a data levava o título de “Dia Internacional contra Homofobia” e com os anos acrescentou-se Bifobia e Transfobia e hoje 30 anos depois da criação, nada de Lesbofobia. Tomei portanto a liberdade de usar LGBTfobia, consciente de que muitas siglas ficaram de fora, mas que tenho certeza que o tempo há de trazer uma nomenclatura mais inclusiva ainda.

Atuando na Casa 1, acabei recebendo alguns pedidos de entrevista pela data e obviamente a questão do coronavírus não passou batido: “Como os LGBT estão sendo afetados com a pandemia?” muitos perguntaram. A resposta foi a mesma para todo mundo, mas a forma como vai ser publicada deve mudar de editor para editor:

“Os LGBT estão sendo afetados da mesma forma que todo mundo, agora, mulheres , incluindo as lésbicas e bissexuais têm vivido um aumento de violência doméstica (segundo o FBSP, Fórum Brasileiro de Segurança houve um aumento de 44,9% de casos de agressão em casa, no estado de São Paulo), as mulheres travestis e transexuais, que segundo a ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais, dependem majoritariamente da prostituição (90%) para sobreviver, estão passando fome devido o isolamento social e negros e negras (incluindo LGBT) têm cinco vezes mais chances de morrer por conta do coronavírus do que os brancos e brancas, como aponta o levantamento feito pela Agência Pública“.

Para mim, todos esses dados não reforçam só as desigualdades do Brasil, mas também o próprio abismo que há na nossa comunidade e também em suas pautas. Em um país onde o legislativo e o executivo se recusam a atender as demandas da população, coube a luta se direcionar para o judiciário que estabeleceu direitos até então inéditos para pessoas LGBT.

Porém, em uma avaliação mais profunda, a pergunta que dá título a esse artigo merece ser refeita: direitos para qual LGBT? Casamento, doação de sangue, criminalização da LGBTfobia, entre outros, interessa à quem?

É preciso deixar claro e tirar o chapéu para a luta de grupos organizados que há décadas vem galgando essas conquistas e colocando a cara a tapa, mas realmente será que somos incapazes de ver que criminalizar qualquer coisa significa dar mais poder para um estado genocida que encarcera muito mais pessoas negras do que brancas (68% no caso das mulheres e 61,7% no caso dos homens) e de uma polícia militar que mata três vezes mais negros do que brancos (75,4%).

Quando justificamos que criminalizar seria trazer dados sobre a população como se o preço, vidas negras, não fosse nada (como inclusive eu cheguei a fazer por alguns anos), lutamos como uma comunidade? Nesse ponto inclusive, a medida do STF que equiparou a LGBTfobia ao Racismo está prestes a completar um ano e não vi um dado sequer.

Será que mirando tão ferrenhamente em pautas como casamento, não deixamos de lado a realidade de milhões de pessoas LGBT que dependem do SUS,  Sistema Único de Saúde e hoje sofrem física e mentalmente com a pandemia, sem possibilidade inclusive de se isolar socialmente porque suas moradas não tem espaço para isso?

Enquanto nas redes sociais, homens gays relatam o quão difícil está sendo lidar com a falta de exercícios e de sexo, mulheres trans lutam para conseguir um auxílio emergencial de 600 reais que tem que ser suficiente para aluguel, contas e comida.

Enquanto o cancelamento de cantoras pop é assunto semanal, um mundo sem fim de nós vive a LGBTfobia escancarada, violenta, profunda e me pego usando a hipérbole “mundo sem fim” porque não temos no país dados que nos são tão necessários para cobrar políticas públicas e mudanças estruturais.

Precisamos aproveitar a data da luta portanto, para entender qual LGBTfobia nos atinge  e jogar no lixo as falsas simetrias: sim, piadas e comentários lgbtfobicos feitas no ambiente de trabalho e o medo de assumir a própria sexualidade gera um desgaste psicológico que não se mede. Sim, se sentir diminuído e impotente por não poder doar sangue é de um amargor ácido que corrói. No entanto, vivendo em uma sociedade tão desigual, o conceito de comunidade não pode ser apenas um nome e é preciso encarar que as violências que pessoas LGBT pobres e negras se dão em lugares muito mais perversos e dolorosos fisicamente.

Precisamos começar a olhar e nomear a LGBTfobia e seus graus e impactos, para determinar qual esforço vai ser dedicado para cada luta, algo que o movimento negro tem feito de forma constante ao entender racismo estrutural, racismo recreativo, racismo institucional, entre outros. Separar a LGBTfobia em homofobia, bifobia, lesbofobia e transfobia não é suficiente porque engloba exclusivamente quem sofre o preconceito e alguns recortes da agressão, mas não dá conta de diferenciar por exemplo o que sofre um gay sem trejeitos para um gay afeminado ou então uma jovem lésbica branca e uma negra.

Não é sobre criar um escala de sofrimento ou então pagar uma ou outra agressão e sim entender a raiz das questões para melhor combate-las e antes de entender é preciso olhara para elas, algo que grande parte do movimento se recusa a fazer.

Em paralelo é preciso refletir e colocar em prática o como pautas de determinados grupos se sobressaem a de outros e muitas vezes acabam se tornando armas de opressão para quem faz parte da sua própria comunidade, como exemplifiquei acima quando falamos de criminalização da LGBTfobia.

A comunidade LGBT é plural, assim como a LGBTfobia que se emaranha em todos os cantos e por isso nosso exercício constante deve ser o combate dela, não como um conceito abstrato que permite ver apenas uma parte do problema, e sim como algo concreto, e nesse sentido perguntar sobre qual LGBTfobia estamos combatendo, torna-se urgente e necessário.

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Por Iran Giusti

Iran Giusti é formado em Relações Públicas pela FAAP, atuou como gestor de redes sociais e gerente de projetos em agências de RP e Social Mídia e como jornalista foi repórter do canal de conteúdo LGBT do Portal iG e do BuzzFeed Brasil. Atualmente se dedica a gestão da Casa 1, um centro de acolhida e cultura LGBT e produção de conteúdos em que acredita.

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