Grafite combate depressão e violência nas cidades e possibilita carreira internacional a jovens periféricos

O grafite salva vidas. Quando você lê a frase “o grafite salva vidas”, provavelmente pensa em histórias de jovens periféricos que ganharam dinheiro com essa arte que colore os muros das cidades espalhadas pelo globo. O grafite, assim como o MC, o break e outros elementos da cultura hip-hop, virou sinônimo de carreira e ascensão social para milhares de jovens das quebradas do Brasil.

Essa é a história do pernambucano Véio, por exemplo, que você vai acompanhar a seguir. Mas, no caso dos jovens que Véio tem atingido com seu “grafite motivacional”, essa frase é mais literal e os ajuda em questões de saúde mental, como a depressão. É o que revelam mensagens recebidas pelo artista, como: “Tô te mandando essa foto porque eu quero que tu saiba que seu grafite está salvando minha vida”.

Grafite motivacional

“Infelizmente o pobre não pode errar na escolha dele e quem decide seu curso não é seu coração, é sua necessidade de ganhar dinheiro”, explica Thiago Théas, ou Véio, como ficou conhecido devido à sua arte. O recifense, de 31 anos, há 6 passou de um jovem frustrado com a necessidade de trabalhar e estudar em uma área de que não gostava para um grafiteiro e empresário parceiro de marcas como a Rede Globo e a Red Bull. 

O morador da periferia de Jaboatão, no Recife (PE), chegou a ingressar em um curso técnico de eletrônica, mas percebeu que seu sonho era outro: “Eu estava na aula e o pessoal ficava ‘esse aqui não é seu curso, você tá no curso errado’, porque eu ficava desenhando o tempo todo”, conta o grafiteiro.

Thiago “Véio”, que nunca chegou a trabalhar com eletrônicos, acabou indo explorar a carreira de designer gráfico em uma loja de surfe de sua região.  Para ele, não era o emprego ideal, mas algo que o aproximaria das artes plásticas. 

Em um dia comum de trabalho, um conhecido pediu para que Thiago estilizasse uma prancha de surfe usando canetas permanentes. O artista não só fez o trabalho, como viralizou na internet por meio de um vídeo, que chegou até o perfil da Posca, marca das canetas utilizadas, tornando-se conhecido nas redes pelo seu talento. “Eu só era o designer de uma marca que decidiu fazer um desenho para um amigo, a única coisa que eu fiz [a mais] foi filmar”, explica Thiago. 

A partir daí surgiu o convite para aprender e praticar grafite. Para o ex-designer a paixão pelo grafite veio de forma rápida e natural e por mais que ele entendesse a dificuldade de deslanchar nessa área, estando fora do eixo Rio-São Paulo, em pouco tempo Thiago já estava na rua grafitando. Até que surgiu a ideia de criar o personagem “Véio”, acompanhado de frases motivacionais nas suas artes.

Segundo Véio, sua intenção nunca foi viralizar ou sair na mídia, ele apenas pensava o quão gratificante seria se algumas de suas frases como “Hoje vai ser massa” ou “Não fale mal do seu irmão” tocasse o dia de alguém. Thiago só não esperava que isso ajudasse jovens a enfrentarem momentos difíceis de suas vidas, como podemos ver em mais uma mensagem recebida por ele: “Eu tenho 13 anos, moro em Curitiba e eu tenho depressão. Costumo ficar me cortando e sempre que sinto vontade de me cortar, agora, entro no seu Instagram e vejo suas frases”. 

Depois de um tempo, Véio passou a perceber que, em alguns momentos, com 5 ou 10 dias de trabalho com o grafite, ele ganhava mais dinheiro do que em um mês de trabalho na empresa em que era designer e, assim, depois de 7 anos de emprego formal, decidiu que era a hora de viver da arte: “Hoje, o xampu, o detergente, o aluguel da casa, o carro, tudo é pago através de arte”, explica Thiago que conta com mais de 25 mil seguidores em sua página profissional no Instagram.

A rua é nóis?

Yayá Ferreira, 23, é grafiteira e acha necessário entender que a rua não é sinônimo de felicidade e segurança para todo mundo: Primeiro a gente entende que pintar na rua sozinha sendo uma mulher preta, sapatão, é muito assustador. Então, a gente se junta mais nesse sentido de proteger uma a outra, de estar atenta no movimento que está acontecendo”. Ela que faz parte da crew – grupo ou coletivo de grafiteiros que se reúnem para criar juntos – Preta Pinta Preta, há 5 anos, conheceu o grafite como uma forma de expandir sua arte: “A gente quer levar a mulher preta para a rua e fazer entender que a gente também trabalha nisso, que também pinta, a gente também ensina”, explica. 

Yayá diz que o universo do grafite sempre foi muito masculino e hostil para as mulheres, por isso, reforça a importância das crews no processo de inserção e manutenção das mulheres nesse espaço. Segundo a artista, trata-se de garantir uma caminhada segura para outras meninas.  

A moradora da zona norte do Rio de Janeiro, que além de grafiteira também é artista visual, ilustradora e designer, se afirma como mulher gorda e lésbica. Ela diz que seu talento era questionado por ser quem é: “Antes de eu entrar pra coletiva eu pintava sozinha e estar em eventos com homens é muito complicado, tipo quando eles me viam em cima da escada do andaime ficavam: ‘Como assim, como que ela tá fazendo isso?’ e eu consigo fazer, me canso provavelmente mais do que eles, sim, mas consigo fazer”, afirma. 

Apesar de hoje as mulheres negras, indígenas e LGBTQIA+ — como Auá Mendes, artista indígena, travestigênere e manauara e Kerolayne Kembelin, artista preta e manauara  — estarem conquistando seu espaço dentro da arte, nem sempre foi assim.

Nos anos 80, quando OSGÊMEOS chegaram ao grafite, mulheres eram exceção e a presença masculina era o padrão do movimento. “Que bom que temos todos esses questionamentos hoje. Nos anos oitenta os grupos eram mais separados”, celebram OSGEMEOS, pioneiros do grafite no Brasil e artistas famosos mundialmente.

“Nosso trabalho diminuiu o número de assaltos”

Para Yayá, o grafite vai além de satisfação pessoal ou algo estético. Por meio do trabalho que sua crew tem feito, elas impactam a realidade de sua cidade:

 “Com os trabalhos que fizemos a gente conseguiu de fato revitalizar espaços, criar espaços mais seguros, fazer com que uma rua não estivesse mais cheia de lixo e diminuir o índice de assaltos dentro daquela rua porque as pessoas passavam mais por ali”, conta a artista. 

Yayá não tem sido a única a usar o grafite como estratégia de segurança 

pública. A Secretaria de Segurança Pública de Brasília implementou, em 2021, o projeto “Grafite, Arte & Segurança”, que por meio do trabalho de grafiteiros usou da arte para dar visibilidade a canais de segurança, revitalizar espaços abandonados e passar sensação de segurança para os moradores. 

7 momentos importantes do grafite

Entre o final dos anos 60 e início dos anos 70, alguns jovens anônimos de Nova York começam a pintar e escrever nas paredes da cidade, popularizando o que viria a ser conhecido como grafite. Em 1978, o estilo chegou ao Brasil.

No princípio era a bota

1978 é considerado o ano do parto do grafite brasileiro. Nessa época, uma bota preta feminina passou a ser rabiscada nos muros de São Paulo, dando origem à personagem Rainha do Frango Assado, criada pelo artista plástico Alex Vallauri.

Alex tem raízes internacionais: de família italiana, nasceu na Etiópia, morou na Argentina e mudou-se para o Brasil, aos 16 anos, onde estudou artes plásticas. Nos anos 80, conheceu e produziu com alguns dos maiores nomes do grafite mundial: Jean-Michel Basquiat e Keith Harris, em Nova York. 

Quando Alex fez seus primeiros rabiscos nos muros paulistanos, Otávio e Gustavo Pandolfo, nascidos em 1974, no bairro do Cambuci, região central de São Paulo, tinham 4 anos. 

Os irmãos conheceram em 1980 a cultura hip-hop e o break por meio de um grupo local, o Fantastic Break e, desde então,  mergulharam nesse universo:

“Lá parecia que todos éramos de um mesmo planeta, trocando informações independente de quem você era e de onde tivesse vindo, era uma grande família. Por mais que um tivesse desavenças com outro, era tudo resolvido na dança, o famoso ‘racha’ ”, contam OSGEMEOS. 

O movimento hip-hop, tradicionalmente, é dividido em quatro elementos: o break (que primeiro chamou a atenção de Otávio e Gustavo), o MC, o DJ e o grafite. Devido às suas aptidões para o desenho, a aproximação d’ OSGEMEOS com o grafite surgiu naturalmente e logo se tornou paixão:

“Aprendemos a enxergar a vida diferente, o grafite é um universo gigantesco, ao mesmo tempo que proporciona total liberdade pode te proporcionar prisão. E esses dois paralelos sempre andam juntos. O grafite tem uma magia, quem vive sabe o que é e por mais que várias dificuldades aconteçam, essa magia sempre nos deu energia para continuar”, dizem OSGEMEOS.  

Hoje os irmãos paulistanos têm grafites em países tão díspares como Cuba e o Japão e trabalhos expostos nos mais renomados museus — como o Louvre, na França, e o Tate Modern, em Londres.

Essa reportagem foi produzida em parceria com Uol Ecoa e está disponível em reportagens especiais.

Centro de Valorização da Vida

Caso você esteja pensando em cometer suicídio, procure ajuda especializada como o CVV (Centro de Valorização da Vida) e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.

Reportagem: Edilana Damasceno
Edição: Fred Di Giacomo
Ilustrações: Marcos de Lima 

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Por Data Labe

O data_labe é um laboratório de dados e narrativas na favela da Maré – Rio de Janeiro. No centro dos projetos desenvolvidos está a questão do imaginário construído sobre a cidade e seus habitantes. O laboratório nasceu em 2015 nas dependências do Observatório de Favelas, em parceria com a Escola de Dados, e hoje se estabelece como organização autônoma e autogerida. As ações estão organizadas em três eixos: jornalismo; formação; e monitoramento e geração cidadã de dados.

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