Por Lucas Veloso e Matheus Oliveira

Fim do benefício pode deixar 63 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza; aumentaram pedidos de ajuda por comida em grupos de bairros nas redes sociais

Desempregada, apesar das dezenas de currículos entregues nas últimas semanas, Jenifer Carvalho dos Santos, 27, vive com marido e o filho, de um e sete meses, em Paraisópolis, a segunda maior favela da capital paulista.

Ela foi uma das 68 milhões de pessoas beneficiárias do auxílio emergencial, recurso federal concedido para diminuir o impacto da crise sanitária na renda dos mais pobres.

Ao todo, foram nove parcelas que serviram para comprar alimentos e pagar aluguel em casa, mas o fim do benefício tornou as coisas mais difíceis.

“Está um pouco difícil. A gente não recebe o que recebia antes, e o Bolsa Família só dá para comprar o básico, porém tenho um filho que depende de mim”, diz.

Jenifer diz que a situação na casa se repete com outras pessoas. Atualmente, a família vive a partir da renda do trabalho do marido e dos R$ 267 recebidos do Bolsa Família e do auxílio alimentação, pago pela prefeitura da capital.

“A gente está se virando como pode. Eu acho que deveria voltar o dinheiro porque o mundo está em crise e tem muita gente desempregada também”.

Em dezembro passado foram pagas as últimas parcelas do benefício para milhares de pessoas nas periferias da capital. Desde então, relatos de falta de comida e piora na qualidade de vida dos moradores se tornaram comuns.

Nas redes sociais, a Agência Mural encontrou dezenas de pedidos de ajudas, especialmente por comida, em grupos de bairros.

De acordo com dados oficiais, o fim do auxílio pode deixar ao menos cerca de 63 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza e outros 20 milhões abaixo da linha da pobreza extrema, onde a fome é rotineira.

Criado para auxiliar as famílias, o valor pago pelo governo federal de R$ 600 foi usado por 96% dos beneficiários de favelas, para a compra de alimentos, segundo pesquisa do Instituto Data Favela, parceria do Instituto Locomotiva com a CUFA (Central Única das Favelas), em 72 cidades.

O levantamento, divulgado em junho de 2020, indicou ainda que 56% dos moradores de favelas brasileiras, que conseguiram receber o auxílio emergencial, usaram o valor para ajudar financeiramente amigos e familiares na compra de alimentos e pagamento de dívidas.

Uma pesquisa do instituto Datafolha, em agosto passado, mostrou que entre os que se autodeclararam negros, 49% tinham o auxílio emergencial como única fonte de renda, contra 38% entre os brancos.

Na zona leste da capital, o autônomo Jonattan Dantas Souza, 22, mora no Jardim Vera Cruz, em São Mateus. Sem o valor do governo, afirma que a rotina não está fácil.

“Cada dia tenho que matar um leão pra não passar fome e ser despejado”, comenta.

As cinco parcelas recebidas serviram para pagar o aluguel e comprar alguns alimentos em casa. Para driblar as dificuldades, Jonattan recolhe reciclagem nas ruas do bairro, como garrafas pet, latinhas, além da venda de balas no farol.

Para o autônomo, o governo federal deveria ampliar empregos por meio de políticas públicas. “Deveriam dar algum tipo de ajuda aos empresários para que não fechem as portas. Ando por aí tentando encontrar emprego e o que eu vejo são pessoas querendo contratar, precisando de pessoas, mas sem recursos pra isso”, observa.

Para Margarete Cordeiro o auxílio emergencial deveria ser prorrogado até o fim da pandemia (Matheus de Souza/ Agência Mural)

Em Guaianases, zona leste, a autônoma Margarete Maria Cordeiro, 47, recorreu à internet para vender alguns produtos, como capinha de celular, carregador e pilhas. Com renda insuficiente para despesas, pediu o auxílio emergencial e agora diz sofrer sem o valor mensal.

“O dinheiro deu uma ajudada. A gente comprava o essencial, mas em compensação as coisas no mercado ficaram mais caras. Agora que acabou, ficou mais difícil porque as vendas estão fracas e eu e meu marido estamos desempregados.”

Nas últimas semanas, ela tem saído pelas ruas do bairro com o marido para vender os produtos. Para ela, o benefício deveria continuar.

“É necessário porque a doença ainda está muito forte. Muita gente precisa, está desempregada ou não pode sair de casa. E a gente não tem tempo para esperar as coisas melhorarem. As contas chegam, a fome bate”.

Mesmo com auxílio emergencial, Jânio Oliveira fez bicos de pedreiro e montador de móveis durante a quarentena (Matheus de Souza/ Agência Mural)

A situação não é diferente para Jânio Carlos Oliveira, 59, desempregado há cinco anos. “Está devagar, é muito difícil achar alguma coisa. Muitos lugares não têm vagas e tem muita gente desempregada. A concorrência está muito alta porque hoje temos mais de 14 milhões de pessoas sem emprego”, comenta.

Para levar dinheiro para casa, ele vende balas e chicletes, além de fazer ‘bicos’ como montador de móveis. No ano passado, os filhos o cadastraram no auxílio.

“Com o dinheiro a gente pagava as contas e comprava o que faltava no mercado. Agora que acabou, continuo com os bicos, pois só minha mulher está trabalhando. Lá em casa somos quatro: eu, a mulher, meu filho e minha neta de quatro anos.”

No bairro da Penha, a rotina diária de Larissa Santos Ferreira da Silva, 18, tem sido a procura por alguma vaga de emprego com a entrega de currículos nos comércios locais. Sem o auxílio de R$ 600 que os pais receberam por alguns meses, a busca por uma ocupação se tornou urgente.

No dia primeiro de fevereiro, Larissa Ferreira ficou desempregada (Matheus de Souza/ Agência Mural)

“Em casa, a gente não tinha passado aperto por eu e minha irmã estarmos trabalhando, mas agora, sem o dinheiro, e nós duas desempregadas, não tem como esperar.”

NÃO AO FIM DO AUXÍLIO EMERGENCIAL

Uma mobilização de mais de 270 entidades da sociedade civil, entre elas a Oxfam, a Coalizão Negra Por Direitos e a Uneafro, pede que o benefício público continue até o fim da crise sanitária.

A campanha Auxílio Até o Fim da Pandemia pretende recolher 500 mil assinaturas em um documento que deve ser entregue, ainda em fevereiro, para o novo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).

O documento diz que, em 2020, o auxílio conseguiu garantir não só a comida no prato de milhões de brasileiros, mas também milhões de vidas, permitindo que as pessoas ficassem seguras em casa.

“Agora, com o fim do benefício, quase 27 milhões de brasileiros seguem vivendo na linha de pobreza extrema no país, sem conseguir garantir o sustento de suas famílias”, pontua um dos trechos.

As organizações lembram que, apesar da vacinação já ter começado no Brasil, pouco mais de 2 milhões de pessoas foram vacinadas. As perspectivas mais otimistas indicam que só no final do ano a imunização terá chegado à maioria da população.

“Nossa pressão conquistou o auxílio em 2020 e agora é hora de nos unirmos novamente para garantir condições das famílias brasileiras mais vulneráveis enfrentarem o coronavírus em 2021”, diz outro trecho da campanha.

Os ministérios da Economia e da Cidadania foram procurados pela reportagem, com questionamentos sobre o fim do benefício e previsões para os próximos meses, mas não obteve resposta até o fechamento do texto.

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Por Agência Mural

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