Por Juliana Salles de Siqueira, voluntária da Biblioteca Caio Fernando Abreu

Há interessantes habilidades que as palavras, escritas pela poeta Angélica Freitas, revelam. No “laranjal”, as de apreciar o tempo de decantação das ervas em velha garrafa térmica; de observar relações entre uma aranha, uma cuia e um padrasto; de contemplar a longa vida de um pequeno cacto, ou de reconhecer a coragem de quem mergulha sem medo de perebas ou cacos de vidro quando o jornal noticia a lagoa contaminada. Ela, a poeta, cata a poesia entornada do cotidiano para lançá-las às páginas que nos chegam com o humor de uma mulher que sabe dançar até as canções de atormentar. Ainda que estas envolvam explicar o Brasil a um extraterrestre ou lidar com traíras ao som das bombas disparadas pela cavalaria policial em direção aos próprios afetos.

Para dançar essas canções, a poeta vai caminhar (“repetir quantas vezes necessário/voltar pra rua até que aprenda”), e também ver os carretéis de Iberê Camargo, os azuis de Claudia Andujar ou a Marianne jamais escrita por Leonard Cohen – por não ser ele poetisa? Chama, para sua companhia, pelo nome e em dedicatórias, outras nossas trilhas sonoras e literárias – “Um labirinto em cada pé”, “Delta estácio blues”, “Maria Martins: metamorfoses”.

Memórias leitoras que se agregam como entrelinhas das “Canções de atormentar”. Se Ana C. pega a mão da poeta, nós também nos sentimos de mãos dadas com Angélica Freitas, nesta leitura, desejosas do próximo verso


“que nos conte o que mais houve
para darmos visões novas ao
nosso amor
e novos cenários para o nosso
tesão”.


Na continuidade possível entre palavras escritas e lidas, lidas e escritas, a poesia de Angélica Freitas nos convida a caminhar pelas ruas em busca de nossas próprias experiências esplêndidas, talvez menos para escrever (deixamos isso para a poeta) do que para devolver a atenção de nossas “solas bem/ pegadas ao pavimento”.


Que prazer é encontrar, assim, as habilidades vinculantes e sensíveis de palavras que nos reaproximam do mundo, numa prateleira de biblioteca e pralém dela, no encontro com “Canções de atormentar”, publicado pela Companhia das Letras em 2020. Este é o terceiro livro da poeta, tradutora e jornalista Angélica Freitas, nascida em Pelotas. Consultando a Enciclopédia Sapatão é possível acessar mais informações sobre a sua vida e suas obras.

Ilustração: Gustavo Inafuku, voluntário da Biblioteca Caio F Abreu

Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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