Por Izadora Xavier, voluntária da Biblioteca Comunitária Caio F. Abreu

* Este texto é uma resenha do livro “Órbita de Inverno“, lançado no Brasil pela Editora Suma. A obra foi escrita por Everina Maxwell e traduzida por Vitor Martins.

Um império intergaláctico está em risco. Essa história você já conhece. Um casamento arranjado entre dois príncipes alienígenas é a esperança para salvar o Império (mas o Império vale ser salvo?). Essa história você conhece menos, e é ela que Órbita de Inverno conta.

Se você é fã de fantasia, ficção científica ou simplesmente séries americanas e fala inglês, você talvez conheça o site que se chama Archive of Our Own. Eu conheço porque esse site hospeda uma enorme quantidade de fanfic — e muita fanfic LGTBQINA+. “Fanfic” sendo essa categoria literária que surgiu na internet em que pessoas se servem de personagens e mundos inventados por outres autores para escrever suas próprias histórias. O Archive of Our Own foi uma plataforma que floresceu, por exemplo, numa lógica própria aos tempos áureos da internet. Se não havia representatividade LGTBQINA+ suficiente na ficção, sobretudo nas séries, fantasia e ciência ficção que tem em geral como público adolescentes, então esses adolescentes LGTBQINA+ pouco representades criaram suas próprias representações. Se o seu “ship” (de relationship, relação) não se concretizava porque ele era entre os dois personagens ou as duas personagens principais de uma obra “grande público” que não queria “se arriscar” em temas LGTBQINA+: Archive of Our Own neles. Talvez não seja absurdo supor que se temos tanta mais representação nas séries e filmes, em parte é pelo sucesso desse site.

“Órbita de Inverno” não só teve seus primeiros capítulos publicados nesse site, pela sua autora Everina Maxwell, mas ele mostra as marcas de uma escrita que se desenvolveu nos fóruns do AOOO. Ele é um romance cheio de fantasia e detalhes sobre planetas alienígenas, mas ele é sobretudo uma história de amor fofa, no melhor estilo série Netflix ou filme juvenil, com a particularidade de ser protagonizado por dois homens (extraterrestres) em um planeta onde há muitas embaixadoras, engenheiras e mesmo generais mulheres — assim como generais e jornalistas não-bináries. Onde homens se casam entre si em rituais diplomáticos.

Além de ser uma leitura leve e fofa, nesse planeta distante onde o Império intergaláctico está em perigo, é o amor entre dois homens que salvará seus planetas: esse é o tipo de imaginação fantasiosa que realmente inventa outros mundos, em vez de repetir as mesmas neuroses do mundo que já conhecemos adicionando uma ou duas bugigangas esquisitas. O livro tem uma outra bela qualidade imaginativa: nesse briga entre diferentes mundos, é a coragem de uma vítima de abuso em lidar com seu trauma que salva o dia.

Há uma cena também um pouco “quente” — mas sobretudo fofa, entre dois personagens perdidos no meio de um planeta alienígena em que sempre é inverno que parece ser um aceno a um outro livro de ficção científica que já recomendei aqui, “A Mão Esquerda da Escuridão”, de Ursula Le Guin. Apesar de Órbita de Inverno não ter a riqueza de detalhes e a força da narrativa da Mão Esquerda, ele parece realizar aquilo que esse livro, escrito há 50 anos, foi muito tímido para fazer.

Uma leitura agradável, fácil e doce. Everina está preparando um outro livro para sair em novembro de 2022, outra história de amor entre dois extraterrestres, pelo que eu pude entender, que já está na minha fila de leitura. Enquanto espero, há muita fanfic de Órbita de Inverno já disponível na internet pra ir matando a vontade de viver mais aventuras românticas com Kiem e Jainan.

Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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