Quando precisou escolher um nome para o projeto de aulas online de ioga para mulheres negras, que decidiu criar no meio da pandemia, Tatiane Cassiano recorreu à filosofia africana. Assim nasceu o Ubuntu Yoga Brasil -a palavra não tem uma tradução literal, mas carrega a ideia do “eu sou porque nós somos”.

“Estamos aqui [no projeto] porque temos a consciência de que juntas podemos nos fortalecer. Esse lugar da troca de afeto me traz a ideia de aquilombamento e da forma como os nossos ancestrais resistiram a tanta violência e opressão [isso foi possível] porque eles estavam unidos”, diz ela.

O projeto surgiu com o objetivo de criar uma rede de apoio entre mulheres negras pensando nos atravessamentos do machismo e do racismo que elas têm de lidar, define Tatiane.

Para ela, a ioga a permitiu deslocar de coadjuvante da sua vida para protagonista, além de ser uma ferramenta muito potente para lidar e transformar traumas. “Nós [negros] passamos por um trauma coletivo e carregamos uma ferida na nossa alma”, diz.

Mas nem sempre isso foi tão claro para ela, que se define como uma pessoa “namastreta”, do povão, que não se encaixa no estereótipo da pessoa zen e paz e amor associado a quem faz ioga. E foi por essa característica que ela resolveu se aventurar na prática, pois sentia a necessidade de equilibrar as emoções.

Baiana de um bairro periférico chamado Pernambués, em Salvador, a sua história com a ioga começou aos 20 anos de idade. Sempre muito curiosa, procurava estudar sobre autoconhecimento devorando livros de autoajuda. Um dia em um sebo encontrou um título curioso: “Yoga Para Nervosos”, do professor Hermógenes. Não deu outra, foi ali naquelas páginas que se reencontrou.

Porém, antes de entrar de vez no mundo zen passou por algumas etapas. Primeiro, começou a fazer tecido acrobático e só depois partiu para a prática de acroioga.

Ela recorda que durante um aulão aberto do método DeRose, nas ruas de Salvador, se encantou pelos movimentos do corpo misturados com meditação e respiração.

Em 2019, ela teve a oportunidade de fazer um curso de formação, mas se sentia um pouco insegura de ocupar aquele lugar de profissional. O motivo era a falta de representatividade.

A imagem estereotipada da ioga lhe dava a sensação de que aquilo não era para ela. Ao mesmo tempo, percebia que a prática a potencializava como ser humano e como mulher negra, além de a ajudar a olhar para os seus traumas e transformá-los.

“Para quem vive à beira da sobrevivência o parar, meditar e entender as emoções são as últimas coisas que se quer fazer”, diz.

Em 2020, no início da pandemia, se viu perdida, sem trabalho e todos os sentimentos de ansiedade e medo transbordando. Foi em uma sangha -comunidade de praticantes- que a ioga veio como um acalento. Logo, percebeu que possuía nas mãos uma ferramenta que poderia ser muito útil naquele momento.

Em um desses encontros conheceu a produtora cultural Tayla Candido, 34, e o fato de terem sido as únicas mulheres negras de suas turmas de formação as aproximou.

“Nós duas tínhamos as mesmas questões diante de não se ver dentro desse universo da ioga. Em uma ligação, percebemos que compartilhávamos das mesmas angústias e incertezas”, afirma Tayla.

Depois do curso de formação, Tatiane passou a dar aulas particulares para uma amiga que durante a pandemia recebeu o diagnóstico de síndrome do pânico e ansiedade crônica. Com a experiência, percebeu que a ioga poderia transformar a vida das pessoas.

Pouco tempo depois, quando integrava um grupo de casting de modelos negras em uma agência ouviu das colegas os mesmos relatos de crise de ansiedade, angústia e insônia, e ficou pensando em uma forma de ajudá-las.

Em uma conversa com Tayla, contou a ideia de começar a dar aulas gratuitas para aquelas mulheres e a convidou para ser instrutora também.

“Na pandemia, eu me peguei observando o quanto estava sendo difícil para as pessoas e queria muito fazer algo que pudesse ajudá-las a não perder o eixo. Percebi que a Tati também compartilhava desse mesmo desejo”, afirma a produtora cultural.

Multiplicar a ioga para o maior número de pessoas negras possíveis sempre esteve entre os objetivos de Tayla. Não demorou muito para que o número de facilitadoras -como o projeto chama às instrutoras- crescesse.

Em uma das aulas, a personal e ex-atleta de basquete Aline Inocencio, 29, se apresentou como professora e passou a compor o time.

“Eu queria dar aula para o meu povo, mas até então não tinha encontrado uma forma e não sabia como começar. Estava muito perdida no mundo da ioga e não me sentia pertencente a nenhum grupo”, diz.

Para ela, conseguir levar o que aprendeu para as mulheres negras é maravilhoso e o benefício é mútuo. “Porque tem coisas que não precisamos falar entre a gente [referindo-se ao racismo estrutural]”, diz.

No boca a boca, o número de alunas só foi aumentando.

No início, as aulas eram exclusivas para um grupo de cerca de 40 mulheres, que participavam da prática de graça, como bolsistas. Depois, o projeto abriu turmas para o público em geral e ofereceu o curso por um valor mais acessível.

A assistente social e artista multidisciplinar Mariana Miguel Avelino, 32, procurou a prática com o objetivo de prestar mais atenção na sua respiração. “No início da pandemia, o nosso maior medo era essa falta de ar. Foi um baque e eu me sentia um pouco sufocada”, diz.

Ela, que faz aulas três vezes na semana, se diz apaixonada pelo Ubuntu Yoga e que o projeto transformou sua vida no momento em que mais precisava. “Por ser só de mulheres negras me sinto acolhida e percebo o verdadeiro sentido da palavra ubuntu”, diz.

“Nós mulheres pretas somos cobradas desde pequenas e ouvir uma outra pessoa falando ‘tenha calma, vai até onde você consegue ir e tudo bem se perdoar’ isso é uma cura. Eu comecei a me perdoar e ter mais paciência comigo”, afirma.

A enfermeira Tais Ramos, 29, que faz parte da turma de bolsistas, diz que o projeto também chegou na vida dela em um momento crucial. Além do cenário de pandemia, ela precisava lidar com o fato de a irmã estar doente.

Ela lembra que sempre teve vontade de fazer ioga, mas a oportunidade até então nunca havia chegado. “Primeiro, porque não é uma aula barata e para encontrar um projeto que oferece aulas gratuitas é difícil. Segundo, por não ter tempo por causa do trabalho”, diz.

A enfermeira também sentia falta de representatividade. “Isso é o mais importante da Tati. Ela mostra que independentemente de etnia e gênero todo mundo é capaz de praticar e quebra esse tabu de que a ioga é para pessoas de classe alta”, afirma.

Reforçar a imagem de outras mulheres negras praticando é uma das estratégias do projeto para atrair as alunas. Outra estratégia é o valor mais acessível justamente para que o dinheiro não seja um empecilho.

Quem opta por fazer as aulas pode escolher entre três opções de preço. Para as aulas avulsas, o valor mínimo é R$ 22, o sugerido R$ 40, e o abundante, qualquer quantia acima disso. Há também pacotes mensais de uma, duas e até três vezes na semana.

As aulas acontecem normalmente pela manhã e à noite para facilitar o acesso de quem trabalha.

Por ser um curso online, o projeto conseguiu atrair mulheres de vários lugares do país. Nas turmas atuais, há alunas de Brasília, Manaus, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Chapada Diamantina, João Pessoa e Florianópolis.

Mas o objetivo é expandir ainda mais e, quem sabe, “em um futuro mais seguro para todos, oferecer aulas presenciais e até aulões gratuitos”, projeta Tatiane Cassiano.

SÃO PAULO, SP

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Por Folha Press

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