Durante as eleições de 2020, a Clínica Social Casa 1 coordenou o Escuta Candidata, um projeto de enfrentamento às desigualdades de representação de mulheres na política institucional pelo eixo do cuidado e da saúde mental, em especial de mulheres negras (de todas as identidades de gênero e orientações afetivo-sexuais) e mulheres LBTI+ (de todas as raças/etnias).

O foco de atuação foi o combate à violência política, entendida como fator importante na reprodução das violações de direitos à população – especialmente de mulheres – em suas interseccionalidades, já que a sub-representação de mulheres em espaços de poder tem um impacto direto na construção de políticas públicas relacionadas a essas mesmas pautas identitárias.

Agora, quase um ano depois do término do projeto, a equipe envolvida divulgou um relatório final, que apresenta uma análise descritiva dos dados quantitativos e qualitativos produzidos ao longo do Escuta Candidata.

Confira:

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E para quem quiser se aprofundar nos temas abordados pelo projeto, também preparamos uma entrevista com uma das coordenadoras, Mariana Penteado:

Como surgiu a ideia do projeto?

A ideia surgiu de dois grandes aspectos: a subrepresentação de mulheres na política institucional e a noção de cuidado como prática de luta pela democracia. Os dados concretos da política institucional brasileira mostram: mulheres são maioria na população brasileira e no eleitorado, mas eram apenas 12,32% na política institucional, de acordo com o Mapa de Política de 2019. Ou seja, 87,68% dos cargos nas câmaras de vereadores, assembleias legislativas, congresso nacional e senado é composta por homens. Isso significa que nossas leis e políticas são pensadas por um grupo de pessoas de maioria branca e masculina. É fundamental ressaltar que não reconhecemos mulher como uma categoria universal, por isso, nosso foco é sempre na pluralidade e interseccionalidade. Existem diversos projetos de fomento a candidaturas de mulheres, geralmente focados em processos de formação. No entanto, as questões de cuidado e saúde mental no enfrentamento à violência política muitas vezes não são levadas em conta. Compreendendo as dificuldades encontradas por mulheres que atuam na transformação social como sofrimento ético-político, que une a violência vivenciada em suas próprias vidas com as testemunhadas nas comunidades de que fazem parte, o Escuta Candidata buscou a escuta, o acolhimento e o fortalecimento dessas subjetividades como parte intrínseca do processo democrático e do combate à subrepresentação.


Que tópico sobre violência mais impactou vocês e por quê?

O assassinato da vereadora Marielle Franco, até hoje sem resposta, é um dos casos mais emblemáticos e extremos de onde essa violência chega. No entanto, quase que diariamente chegam notícias de ataques e ameaças físicos e virtuais que trazem complicações ao exercício livre da cidadania e da concretização de projetos políticos baseados na defesa de direitos humanos e da diversidade. A mensagem que se tenta passar é que os espaços de poder não são para as mulheres, portanto, toda tentativa de humilhação, rebaixamento, assédio e silenciamento são proferidas nesse sentido. Toda a violência tem impacto, pois ela está a serviço de manter operante uma lógica de poder machista, racista, classista e LGBTQIA+ fóbica.

Por que vocês acham que a terapia ficou em último lugar como um lugar de apoio e cuidado?

Não diríamos exatamente que ficou em último lugar, mas a luta de muitas coletivas tem sido na formação e preparo dessas mulheres aos cargos de poder. É comum ouvirmos que as mulheres precisam se esforçar infinitamente mais que os homens para ocupar os mesmos espaços, principalmente mulheres pretas e travestis, então, esse dado de realidade vem acompanhado de um discurso de que é assim mesmo, as mulheres têm que aguentar o que for se quiserem jogar o jogo, o que está implícito em tais afirmações é uma lógica bastante cruel e perversa de que apoio e cuidado podem ser um sinal de fraqueza, de impossibilidade. Para além disso, muitas das candidatas que buscaram o projeto o fizeram justamente pela falta de acesso ao cuidado em saúde mental dentro de suas realidades e localidades. Para uma parte considerável das mulheres atendidas, a experiência com o Escuta Candidata foi a única possibilidade para trabalhar essas questões junto a profissionais de saúde mental. [nesse caso, o dado não é exatamente esse. a questão é que a maioria informou não ter nenhuma rede de cuidado. e das que tinham acesso, pedimos que elencassem quais.

Por que as mulheres da pesquisa tiveram dificuldade de identificar as inúmeras violências que sofrem como violência de gênero?

Em parte, porque essas violências são mascaradas como parte do jogo político. Em parte, porque a violência já atravessava suas vivências e corpos antes mesmo da experiência política.

Por que não é comum que partidos ofereçam auxílio mental para as candidatas?

Não é comum que os partidos ofereçam espaços de cuidado. O ambiente político é um espaço majoritariamente machista e branco, guiado por uma lógica bastante primitiva da lei do mais forte. Não há interesse por parte daqueles que já estão no poder, abrir espaços para as diversidades e representatividades, o que implica dizer que será via violência e opressão que se dão as estruturas da política atual. A realidade da candidatura de mulheres dentro de muitos partidos ainda é a lógica de candidaturas-laranja, para cumprir um papel aparente de representatividade. Para que os partidos mudem esse modo de funcionamento, seria necessária a presença de mais mulheres nos espaços decisórios intra partidários que pautassem a questão da violência política de gênero e suas interseccionalidades.

Homens cis brancos poderem se dedicar exclusivamente à corrida eleitoral interfere de que forma nas candidaturas de mulheres?  O processo de candidatura é bastante intenso, consumindo muito tempo e dedicação de qualquer pessoa que pretenda ingressar na política institucional. O que se observa é que a estrutura heterocisnormativa e branca garante a esses candidatos apoio familiar para a realização das tarefas diárias, deixando-os livres para uma dedicação exclusiva à campanha. No caso de muitas das candidatas mulheres, o que se observa é uma sobreposição entre as atividades de campanha e o trabalho de reprodução social (cuidados domésticos, com os filhos, cuidados com pessoas idosas da família, etc.). Dessa maneira, o desgaste da corrida eleitoral não se dá por igual: nem na distribuição de recursos financeiros, nem nas violências que serão enfrentadas, nem no apoio cotidiano. Os problemas que estão presentes nas estruturas sociais de maneira ampla se reproduzem também no ambiente de disputa eleitoral.

Como os dados revelados pelo relatório podem ser aplicados para diminuir a disparidade de gênero no meio político?

Primeiramente, os dados apontam para questões de saúde mental como a maior dificuldade enfrentada durante a campanha. Portanto, projetos de apoio e cuidado em saúde que atentem para as especificidades das subjetividades de mulheres candidatas são indispensáveis no combate à subrepresentação. As equipes foram apontadas como pontos importantes de suporte, o que torna necessária a reflexão sobre a importância de entender o trabalho na política institucional como uma ação de coletividade. Portanto, todo tipo de medida de segurança e cuidado dispensada à candidata deveria se estender à sua equipe também. Por outro lado, a efetivação da legislação que regula cotas para mulheres no repasse do fundo partidário deve auxiliar nesse processo, já que o principal motivo de considerar a desistência da candidatura em nossas pesquisas foi a falta de recursos financeiros.


O trabalho foi coordenado pela a Clínica Social Casa 1, a frente de saúde mental do Centro de Acolhida e Cultura Casa 1.
A equipe de atendimento foi composta por 10 mulheres (além da equipe de coordenação, jurídico e relatoria). Dessas 10 mulheres, 8 eram psicólogas que realizavam os atendimentos (Amanda Vilela Tiago, Fernanda Farias dos Santos, Gabriela Mattos Saucedo, Júlia Clara de Pontes, Letícia Aparecida Ferreira, Lohana Morelli Tanure Santos, Mariana Lima Felisberto Rocha, Vanessa Roberta de Freitas) e 2 supervisoras (Mariana Cancoro de Matos, Fernanda Matos Sousa). Os atendimentos foram totalmente gratuitos para as candidaturas às eleições de 2020, durante e após a campanha. Todas as trabalhadoras da política eram bem-vindas, mas a prioridade foi acolher mulheres negras e/ou LBTI+. Vale ressaltar que o serviço se expandia para todas as mulheres trabalhadoras das candidaturas: candidatas, assessoras, chefes de campanha, comunicólogas e toda a rede que viabiliza a corrida eleitoral.
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Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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