Por Leonardo Sanchez para FolhaPress

Uma sequência de cenas de sexo catártica, com pernas entrelaçadas, bundas aparentes e parceiros de vários tipos nas mais diversas posições resume a energia e a intensidade do episódio inagural da minissérie “It’s a Sin”.

Minutos depois, vem um desfecho sombrio, que muda totalmente o tom da história. Um corpo inerte é deitado num caixão, depois que o personagem morre de uma “doença misteriosa”. A frieza apaga qualquer fogo que havia sobrado da festa orgástica de mais cedo, mas não chega a ser uma surpresa.

A Aids, o grande tema da produção, estava à espreita desde o primeiro segundo da trama da HBO Max, ainda sem previsão de estreia no Brasil.
Parte da Berlinale Series, mostra dedicada a séries do Festival de Berlim, que acontece nesta semana em formato virtual, “It’s a Sin” foi aclamada em seu país de origem, o Reino Unido, quando debutou em janeiro. Seu retrato autêntico e doloroso da epidemia que ceifou tantas vidas, especialmente as LGBTs a partir dos anos 1980, fez a crítica especializada ver a obra como uma das melhores minisséries dos últimos anos.

Os elogios vieram como surpresa para a equipe por trás da história. As gravações de “It’s a Sin” escaparam da Covid-19 por pouco, mas a realidade pandêmica fez com que seu diretor, Peter Hoar, se preocupasse quanto à disposição do espectador de encarar um vírus mortal também nas telas.
“No fim eu acho que isso ajudou a série, talvez porque tínhamos um público disposto a pensar sobre esses temas. Mas o tom de ‘It’s a Sin’ e a situação atual trabalharam a nosso favor, porque no fim essa é uma história sobre a vida, sobre o amor. Faz com que as pessoas reflitam que qualquer um poderia ter sido uma vítima lá atrás, assim como agora”, diz ele, em conversa por videoconferência.

De fato, “It’s a Sin” não abandona a empolgação e a sensualidade nos seus outros quatro episódios, que cobrem cerca de uma década. Segundo Hoar e o criador da série, Russell T. Davies, era importante que seus personagens mostrassem toda a potência do que foi a comunidade LGBT naqueles anos. E o que ela seria hoje, não fosse a doença que a devastou e a impregnou de ainda mais estigma.

“Não queríamos drenar a vida e as cores, porque é justamente sobre isso que a série fala”, afirma Hoar. “Ela é sobre o amor gay jovem e o nosso elenco é formado por pessoas que nós poderíamos ter perdido, se vivêssemos naquela época. Elas não fizeram nada de errado, só estavam se divertindo.”

À frente do grupo está Olly Alexander, vocalista da banda de indie pop Years & Years. Ele vive Ritchie, um rapaz que abandona sua cidadezinha nos confins do Reino Unido para estudar direito em Londres. No ambiente universitário, ele é apresentado ao curso de artes cênicas, que desperta nele a paixão. Dali em diante, ele vive uma vida muito, muito gay.

Tudo graças ao Palácio Rosa, espécie de albergue com agenda cheia de festinhas e performances. Lá, ele é vizinho de porta de Roscoe, que sai de casa de vestido depois que seus pais tentam curar sua homossexualidade, Colin, um tímido galês que trabalha nas alfaiatarias de Savile Row, e Ash, um descendente de indianos sexy e musculoso. E também tem Jill, sua melhor amiga e fiel escudeira.

Hoar conta que foi importante assegurar que o elenco de “It’s a Sin” seria formado por atores abertamente gays, para dar credibilidade à história.

Talvez por isso, vários deles estão em seus primeiros trabalhos nas telas. A falta de experiência da gangue é compensada por participações especiais de figuras importantes do meio LGBT, como Neil Patrick Harris e Stephen Fry.

Em sua mistura de sensualidade, jovialidade e dor, “It’s a Sin” quer passar para o público o quão eletrizantes e cheios de possibilidades deveriam ter sido os anos 1980 para os LGBTs, sem esquecer o descaso com o qual a Aids foi tratada por quem estava no poder na época.

Foi uma doença desprezada e demonizada, conta Hoar, ressaltando que nem mesmo médicos ou enfermeiros tocavam nos primeiros pacientes com HIV. Ele não os culpa, porque entende que havia muita desinformação e desinteresse propagados por uma casta de formadores de opinião heterossexuais, que tacharam a Aids de “doença gay”. As fake news, em tempos de coronavírus, continuam, e é por isso que Hoar espera deixar como mensagem a importância da ciência.

Muito além das transas e das festas babadeiras de “It’s a Sin”, a expectativa é que a série mostre um pouco de sua própria história às gerações LGBTs mais novas. “Nosso objetivo nunca foi ensinar algo, mas eu acho que é importante conhecer nossa história”, diz Hoar, que também é homossexual, ressaltando os ainda alarmantes dados sobre a Aids.

“Nós avançamos muito, as coisas estão melhores, mas isso depende de que parte do mundo estamos falando. E isso sempre me faz questionar até que ponto houve evolução, porque fazer parte de uma comunidade pressupõe que você precisa cuidar de todos os seus pares.”

Esta é uma matéria da Folha Press, a agência de notícias da Folha de São Paulo, serviço contratado pela Casa 1.

Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Oie, divide seu email com a gente?

Assim você pode receber nossas novidades a cada mês :)

Obrigada!

ERRO!

Casa 1 will use the information you provide on this form to be in touch with you and to provide updates and marketing.