Este texto foi produzido em novembro de 2020

Jamine Miranda, mais conhecida como Preta Caminhão, aborda importantes reflexões sobre racismo, lesbofobia e a estigmatização de mulheres lésbicas que não performam feminilidade em suas redes sociais. A historiadora e mestre em educação possui quase 16 mil seguidores em seu Instagram. Jamine já foi indicada nas redes sociais das atrizes Taís Araujo e Deborah Secco, que reconheceram a importância dos debates que ela promove nesse meio.

Além disso, a mineira também é idealizadora do Preta Cast Caminhão, um podcast feito especialmente para tratar de racismo e lesbofobia, que, para ela, ainda são assuntos pouco discutidos “Nós lésbicas também somos bem marginalizadas dentro da sigla. A gente também tem pouco apoio, pouca troca”.

Como o racismo está presente na comunidade LGBT e especialmente entre mulheres lésbicas?

O racismo está [presente] em várias camadas, em várias esferas do nosso meio. Em alguns momentos de forma muito escancarada, em outros momentos de forma muito sutil. Se a gente for pensar em um exemplo é como quando você sai para dar um rolê e você só quer beijar na boca de boa, sabe? Geralmente, as minas pretas elas não estão em um lugar de desejo, mas, ao mesmo tempo, pode acontecer de estar no lugar da exotificação. É difícil.

O racismo está muito presente na nossa comunidade e eu observo que é um ponto que se fala muito pouco sobre. Ainda tem esse imaginário que na comunidade lésbica estamos isentas de coisas que acontecem na sociedade. As pessoas romantizam mesmo relação entre mulheres, a gente dá uma romantizada, e acha que isso é um problema de outras minorias e não a nossa.

O movimento feminista negro dá a devida atenção as pautas das mulheres lésbicas ou ainda existe uma barreira?

Eu acho que ainda tem uma barreira. Acho que, no geral, a gente ainda tem que entender que são questões que se atravessam. Eu, enquanto uma mulher negra e lésbica, não escolho qual opressão vou sofrer. Não saio pensando “hoje vou sofrer opressão por ser lésbica” ou “hoje eu vou sofrer opressão por ser preta”, são coisas que se atravessam ao mesmo tempo.

Nas construções feministas existe uma dificuldade [de fomentar a discussão racial], no meio lésbico a gente também tem uma dificuldade, e quando a gente pensa na comunidade negra, a discussão do lugar das mulheres negras e lésbicas também está em um lugar de muita marginalização. A gente tem que entender que tem opressões que se atravessam e que não devem ser pensadas de forma isolada. Classe social, raça e gênero são todas questões que se atravessam o tempo inteiro e não tem como isolar uma ou outra. Ou definir qual é mais ou menos importante.

Você acha que mulheres que não performam feminilidade são mais marginalizadas que as mulheres que performam feminilidade?

Acho total. Não fazendo guerra de opressão de quem sofre mais ou menos. Ser lésbica já é um rolezão, um trem que é complicadíssimo ainda na nossa sociedade infelizmente. E quando você não está na feminilidade imposta ainda cai muito naquele senso comum “não basta ser lésbica tem que parecer com homem também”. Eu tive muita dificuldade em me aceitar enquanto uma lésbica caminhoneira [que não performa feminilidade] porque pensava “ah, eu posso gostar de mulher, mas eu não preciso me vestir dessa forma” por conta desse imaginário.

É muito doido porque eu sinto constantemente que estou em um não lugar. Estava trocando ideia com uma amiga sobre essa questão de liberdade. Estávamos falando como algumas coisas batem no corpo dessa mulher que tá na feminilidade imposta e em como refletem diferentes para mulheres como eu. Se na hora do sexo eu falar que gosto de mandar, automaticamente meu comportamento já é associado ao comportamento de um homem hétero cis que está nesse lugar de dominador, obviamente a gente tem que pensar nas nossas reproduções mas, ao mesmo tempo, uma mina que tá nessa feminilidade imposta se ela fizer isso é visto como liberdade de escolha, liberdade do corpo dela.

Sempre vejo que, mulheres lésbicas como eu, precisam ter seu comportamento reavaliado. A gente tem que repensar enquanto comunidade sim, mas não precisamos ser o tempo todo associadas com o que existe de mais tóxico dentro da masculinidade.

Quando eu me entendi como lésbica, e ainda estava nesse lugar de performar feminilidade, percebia que os convites para ménage eram muitos. Convites sempre invasivos. E hoje em dia, fora desse padrão de feminilidade, eu vejo que os caras têm raiva, sabe? Não tem mais um convite para ménage. A resposta é de violência.

O racismo dentro da comunidade LGBT afeta de alguma forma o trabalho que você faz como produtora de conteúdo digital?

Total. Eu alcancei coisas nesses últimos tempos que eu nunca imaginei que alcançaria na vida. Agora eu estou dando uma entrevista. Alguém tá achando relevante o que eu falo. Isso é muito massa, é incrível (ri).

Ao mesmo tempo, vejo que também tem lugares muito difíceis de alcançar. Nesses últimos tempos estou estudando muito sobre produção de conteúdo e sempre vejo assim “foto não é produção de conteúdo” e fico pensando “foto não é conteúdo para quem?” porque tem muita mina branca, e não é desmerecendo, cada um faz o que quiser e isso é o bacana da internet, cada um produzir o conteúdo que quer produzir, mas tem muita mina branca que só existe. Ela só existe na internet. Só posta ali uma foto dela e tem publi, tem muito engajamento. Diferente do meu caso. Eu tenho como colocar uma foto minha ali mas, se fosse só eu, só minha cara ali desde o início, não daria o mesmo efeito. Tive que fazer uma construção de conteúdo primeiro, mostrar uma vivência para depois conseguir botar uma foto minha, trazer um pouco de mim. É uma barreira mesmo dentro do universo lésbico. Tem muita mina branca produtora de conteúdo transfóbica e racista. E estão aí, fazendo publi.

O que a comunidade LGBT+ pode fazer para não reproduzir o racismo nesses espaços?

Sinto que o mais difícil é essa questão de rever os privilégios. Você ter ali o seu espaço e usar a sua influência a favor de uma causa. E sem ser aquele trem “vou postar uma frasezinha pra ser hypado”, é sobre se tornar um aliado mesmo.

Eu, a Ana Claudino e a Lívia (duas mulheres lésbicas e negras que também são produtoras de conteúdo) puxamos em agosto uma tag no twitter, a #VerificaSapatão. E não rolou, nenhuma de nós fomos verificadas. No momento que a gente construiu essa ideia da tag pensamos para além da necessidade de visibilizar. Se a tag fosse muito específica a galera não ligaria. Por exemplo, se a gente colocasse “verifica sapatão preta” não iria ter adesão.

Foi um movimento impulsionado por mulheres pretas e indígenas, mas a gente foi colocada a margem, teve muita verificação de sapatão branca. Tinha mina branca com 200 mil seguidores sendo verificada. É importante verificar sapatão, mas uma pessoa com 300 mil seguidores ela tem outro lugar de acesso comparando comigo que tem 15 mil seguidores.

Ao mesmo tempo a gente viu muita mina branca engajada, como as minas do canal “Tá entendida”, que estavam no corre com a gente e realmente fortalecendo a nossa luta, entendendo que têm um lugar de visibilidade e usando em prol de outras minorias para gente conseguir construir isso juntas.

Lembro que quando teve esse pedido de verificação, começaram a questionar se essas lésbicas verificadas não seriam transfóbicas, racistas ou gordofóbicas e esses questionamentos geralmente não acontecem em outros mutirões para verificação.

É, teve muito isso também [pausa]. Nós lésbicas também somos bem marginalizadas dentro da sigla. A gente também tem pouco apoio, pouca troca. Falta políticas públicas específicas. Falta muita coisa.

Por Thais Eloy

Taubateana e Jornalista.

One thought on “Jamine Miranda: “Classe social, raça e gênero são todas questões que se atravessam””

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